CAMPESINAS A Poesia Interminável · Capítulo 36 de 192
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CAMPESINAS

CAMPESINAS E OUTROS VERSOS

I

Camponesa, camponesa,

Ah! quem contigo vivesse

Dia e noite e amanhecesse

Ao sol da tua beleza.

Quem livre, na natureza,

Pelos campos se perdesse

E apenas em ti só cresse

E em nada mais, camponesa.

Quem contigo andasse à toa

Nas margens duma lagoa,

Por vergéis e por desertos,

Beijando-te o corpo airoso,

Tão fresco e tão perfumoso,

Cheirando a figos abertos.

II

De cabelos desmanchados,

Tu, teus olhos luminosos

Recordam-me uns saborosos

E raros frutos de prados.

Assim negros e quebrados,

Profundos, grandes, formosos,

Contêm fluidos vaporosos

São como campos mondados.

Quando soltas os cabelos

Repletos de pesadelos

E de perfumes de ervagens;

Teus olhos, flor das violetas,

Lembram certas uvas pretas

Metidas entre folhagens.

III

As papoulas da saúde

Trouxeram-te um ar mais novo,

Ó bela filha do povo,

Rosa aberta de virtude.

Do campo viçoso e rude

Regressas, como um renovo,

E eu ao ver-te, os olhos movo

De um modo que nunca pude.

Bravo ao campo e bravo à seara

Que deram-te a pele clara

Sãos rubores de alvorada.

Que esses teus beijos agora

Tenham sabores de amora

E de romã estalada.

IV

Através das romãzeiras

E dos pomares floridos

Ouvem-se às vezes ruídos

E bater de asas ligeiras.

São as aves forasteiras

Que dos seus ninhos queridos

Vêm dar ali os gemidos

Das ilusões passageiras.

Vêm sonhar leves quimeras,

Idílios de primaveras,

Contar os risos e os males.

Vêm chorar um seio de ave

Perdida pela suave

Carícia verde dos vales.

V

De manhã tu vais ao gado

A cantar entre as giestas,

Com tuas graças modestas,

Correndo e saltando o prado.

E a veiga e o rio e o valado

Que todos dormem às sestas

Acordam-se ante as honestas

Canções desse peito amado.

As aves nos ares gozam,

Entre abraços se desposam,

No mais amoroso enlace.

E as abelhas matutinas

Que regressam das boninas

Voam-te em torno da face.

VI

As uvas pretas em cachos

Dão agora nas latadas...

Que lindo tom de alvoradas1

Na vinha, junto aos riachos.

Este ano arados e sachos

Deixaram terras lavradas,

À espera das inflamadas

Ondas do sol, como fachos.

Veio o sol e fecundou-as,

Deu-lhes vigor, enseivou-as,

Tornou-as férteis de amor.

Eis que as vinhas rebentaram

E as uvas amaduraram,

Sanguíneas, com sol na cor.

1 Na coleção de manuscritos existente na Fundação Biblioteca Nacional, encontramos uma variação deste verso:

“Que linda cor de alvoradas”.

VII

Engrinaldada de rosas,

Surge a manhã pitoresca...

Que linda aquarela fresca

Nas veigas deliciosas!

Que bom gosto e perfumosas

Frutas traz, madrigalesca

A rapariga tudesca

Que vem das searas cheirosas!

Como os rios vão cantando,

Em sons de prata, ondulando,

Abaixo pelos marnéis!

Que carícia nas verduras,

Que vigor pelas culturas,

Que de ouro pelos vergéis!

VIII

Orgulho das raparigas,

Encanto ideal dos rapazes,

Acendes crenças vivazes

Com tuas belas cantigas.

No louro ondear das espigas,

Boca cheirosa a lilases,

Carne em polpa de ananases

Lembras baladas antigas.

Tens uns tons enevoados

De castelos apagados

Nas eras medievais.

Falta-te o pajem na ameia

Dedilhando, à lua cheia,

O bandolim dos seus ais!

IX

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