Universo da obra
Universo da obra
ADVERTENCIA
O titulo de
explica a natureza dos
objectos tratados neste livro, do qual excluí o que
podia destoar daquella denominação commum.
Não se deve entender que tudo o que aqui vae seja
relativo aos nossos aborigenes. Ao lado de
Potyra
e
Niani
, por exemplo, quadros da vida selvagem,
ha
Christã Nova
e
Sabina
, cuja acção é passada no
centro da civilisação. Algum tempo, foi opinião que
a poesia brazileira devia estar toda, ou quasi toda,
no elemento indigena. Veiu a reacção, e adversarios
não menos competentes que sinceros, absolutamente
o excluiram do programma da litteratura
nacional. São opiniões extremas, que, pelo menos,
me parecem discutiveis.
Não as discutirei, agora, que não é azado o ensejo.
Direi somente que, em meu entender, tudo
pertence á invenção poetica, uma vez que traga os
caracteres do bello e possa satisfazer as condições
da arte. Ora, a indole e os costumes dos nossos
aborigenes estão muita vez nesse caso; não é preciso
mais para que o poeta lhes dê a vida da inspiração. A generosidade, a constancia, o valor, a
piedade hão de ser sempre elementos de arte, ou
brilhem nas margens do
Scamandro
ou nas do
Tocantins
. O exterior muda; o capacete de Ajax
é mais classico e polido que o kanitar de Itajuba;
a sandalia de Calypso é um primor de arte que
não achamos na planta nua de Lindoya. Ésta é,
porêm, a parte inferior da poesia, a parte accessoria.
O essencial é a alma do homem.
Das qualidades boas, e ainda excellentes, dos
nossos indios, andam cheias as relações historicas.
Era agreste e rudimentario o estado delles; medeia
um abysmo entre a taba de Uruçamirim e qualquer
dos nossos bairros inferiores. Mas, com todas as
feições grosseiras de uma civilisação embryonaria,
havia alli os caracteres de uma raça forte, e não
communs virtudes humanas. Montaigne, que lhes
consagrou um affectuoso capítulo, enumera o que
achou nelles grande e bom, e conclue com ésta
pontasinha de maliciosa ingenuidade: «Mais quoi!
ils ne portent point de hault de chausses!»
1875.
M. A.
Americanas, de Machado de Assis. Poesia brasileira em domínio público. 14 capítulos disponíveis gratuitamente no Literunico.
Coletânea poética de Machado de Assis em domínio público, publicada no Aurora a partir da edição consolidada da Wikisource.
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