Advertência Americanas · Capítulo 1 de 14
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Advertência

ADVERTENCIA

O titulo de

explica a natureza dos

objectos tratados neste livro, do qual excluí o que

podia destoar daquella denominação commum.

Não se deve entender que tudo o que aqui vae seja

relativo aos nossos aborigenes. Ao lado de

Potyra

e

Niani

, por exemplo, quadros da vida selvagem,

ha

Christã Nova

e

Sabina

, cuja acção é passada no

centro da civilisação. Algum tempo, foi opinião que

a poesia brazileira devia estar toda, ou quasi toda,

no elemento indigena. Veiu a reacção, e adversarios

não menos competentes que sinceros, absolutamente

o excluiram do programma da litteratura

nacional. São opiniões extremas, que, pelo menos,

me parecem discutiveis.

Não as discutirei, agora, que não é azado o ensejo.

Direi somente que, em meu entender, tudo

pertence á invenção poetica, uma vez que traga os

caracteres do bello e possa satisfazer as condições

da arte. Ora, a indole e os costumes dos nossos

aborigenes estão muita vez nesse caso; não é preciso

mais para que o poeta lhes dê a vida da inspiração. A generosidade, a constancia, o valor, a

piedade hão de ser sempre elementos de arte, ou

brilhem nas margens do

Scamandro

ou nas do

Tocantins

. O exterior muda; o capacete de Ajax

é mais classico e polido que o kanitar de Itajuba;

a sandalia de Calypso é um primor de arte que

não achamos na planta nua de Lindoya. Ésta é,

porêm, a parte inferior da poesia, a parte accessoria.

O essencial é a alma do homem.

Das qualidades boas, e ainda excellentes, dos

nossos indios, andam cheias as relações historicas.

Era agreste e rudimentario o estado delles; medeia

um abysmo entre a taba de Uruçamirim e qualquer

dos nossos bairros inferiores. Mas, com todas as

feições grosseiras de uma civilisação embryonaria,

havia alli os caracteres de uma raça forte, e não

communs virtudes humanas. Montaigne, que lhes

consagrou um affectuoso capítulo, enumera o que

achou nelles grande e bom, e conclue com ésta

pontasinha de maliciosa ingenuidade: «Mais quoi!

ils ne portent point de hault de chausses!»

1875.

M. A.

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