Cantiga do rosto branco Americanas · Capítulo 7 de 14
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Cantiga do rosto branco

Rico era o rosto branco; armas trazia,

E o licor que devora e as finas telas;

Na gentil Tibehyma os olhos pousa,

E amou a flor das bellas.

«Quero-te!» disse á cortezã da aldeã;

«Quando, juncto de ti, teus olhos miro,

A vista se me turva, as fôrças perco,

E quasi, e quasi expiro.»

E responde a morena requebrando

Um olhar doce, de cobiça cheio:

«Deixa em teus labios imprimir meu nome

Aperta-me em teu seio!»

Uma cabana levantaram ambos,

O rosto branco e a amada flor das bellas...

Mas as riquezas foram-se co′o tempo,

E as illusões com ellas.

Quando elle empobreceu, a amada moça

Noutros labios pousou seus labios frios,

E foi ouvir de coração extranho

Alheios desvarios.

Desta infidelidade o rosto branco

Triste nova colheu; mas elle amava,

Inda infieis, aquelles labios doces,

E tudo perdoava.

Perdoava-lhe tudo, e inda corria

A mendigar o grão de porta em porta,

Com que a moça nutrisse, em cujo peito

Jazia a affeição morta.

E para si, para afogar a magua,

Se um pouco havia do licor ardente,

A dor que o devorava e renascia

Matava lentamente.

Sempre trahido, mas amando sempre,

Elle a razão perdeu; foje á cabana,

E vae correr na solidão do bosque

Uma carreira insana.

O famoso Sachem, ancião da tribu,

Vendo aquella traição e aquella pena,

Á ingrata filha duramente falia,

E rispido a condemna.

Em vão! É duro o fructo da papaya,

Que o labio do homem acha doce e puro

Coração de mulher que já não ama

Esse é inda mais duro.

Nu, qual sahíra do materno ventre,

Olhos cavos, a barba emmaranhada,

O misero tornou, e ao proprio tecto

Veiu pedir pousada.

Volvido se cuidava á flor da infancia

(Tão escuro trazia o pensamento!)

«Mãe!» exclamava contemplando a moça,

«Acolhe-me um momento!»

Vinha faminto. Tibehyma, entanto,

Que ja de outro guerreiro os dons houvera,

Sentiu asco daquelle que outro tempo

As riquezas lhe dera.

Fôra o lançou; e elle expirou gemendo

Sôbre folhas deitado junto á porta;

Annos volveram; co′ os volvidos annos,

Tibehyma era morta.

Quem alli passa, contemplando os restos

Da cabana, que a herva toda esconde,

Que ruinas são essas interroga

E ninguem lhe responde.

Não é original ésta composição; o original é propriamente

indigena. Pertence á tribu dos Mulcogulges, e foi traduzida da

lingua delles por Chateaubriand (

Voy. dans l′Amer.

). Tinham

aquelles selvagens fama de poetas e músicos, como os nossos Tamoyos.

«Na terceira noite da festa do milho, lê-se no livro

de Chateaubriaud, reunem-se no logar do conselho; e disputam

o premio do canto. O premio é conferido pelo chefe e por

maioria de votos: ó um ramo de carvalho verde. Concorrem

as mulheres tambem, e algumas têem sahido vencedoras;

uma de suas odes ficou celebre.»

A ode celebre é a composição que trasladei, para a nossa

língua. O titulo na traducção em prosa de Chateaubriand é —

Chanson de la chair blanche

.

Sôbre o talento das mulheres para a poesia, tambem o tivemos

em tribus nossas. Veja

Fernão Cardim

,

Narrativa de uma viagem e missão

.

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