A um legista Falenas · Capítulo 20 de 28
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A um legista

A um legista

Tu foges à cidade?

Feliz amigo! Vão

Contigo a liberdade,

A vida e o coração.

A estância que te espera

É feita para o amor

Do sol co’a primavera,

No seio de uma flor.

Do paço de verdura

Transpõe-me esses umbrais;

Contempla a arquitetura

Dos verdes palmeirais.

Esquece o ardor funesto

Da vida cortesã;

Mais val que o teu Digesto

A rosa da manhã.

Rosa...que se enamora

Do amante colibri,

E desde a luz da aurora

Os seios lhe abre e ri.

Mas Zéfiro bregeiro

Opõe ao beija-flor

Embargos de terceiro

Senhor e possuidor.

Quer este possuí-la

Também o outro a quer.

A pobre flor vacila,

Não sabe a que atender.

O sol, juiz tão grave

Como o melhor doutor,

Condena a brisa e a ave

Aos ósculos da flor.

Zéfiro ouve e apela.

Apela a colibri.

No entanto a flor singela

Com ambos folga e ri.

Tal a formosa dama

Entre dois fogos, quer

Aproveitar a chama...

Rosa, tu és mulher!

Respira aqueles ares,

Amigo. Deita ao chão

Os tédios e os pesares.

Revive. O coração

É como o passarinho

Que deixa sem cessar

A maciez do ninho

Pela amplidão do ar.

Pudesse eu ir contigo,

Gozar contigo a luz;

Sorver ao pé do amigo

Vida melhor e a flux!

Ir escrever nos campos,

Nas folhas dos rosais,

E à luz dos pirilampos,

Ó Flora, os teus jornais!

Da estrela que mais brilha

Tirar um raio, e então

Fazer a gazetilha

Da imensa solidão.

Vai tu que podes. Deixa

Os que não podem ir,

Soltar a inútil queixa,

Mudar é reflorir.

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