Sombras Falenas · Capítulo 5 de 28
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Sombras

Sombras

Que tienes? que estás pensando

Gloria de mi pensamiento?*

Cervantes*

Quando, assentada à noite, a tua fronte inclinas,

E cerras descuidada as pálpebras divinas,

E deixas no regaço as tuas mãos cair,

E escutas sem falar, e sonhas sem dormir,

Acaso uma lembrança, um eco do passado,

Em teu seio revive?

O túmulo fechado

Da ventura que foi, do tempo que fugiu,

Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?

Com que flor, com que espinho, a importuna memória

Do teu passado escreve a misteriosa história?

Que espectro ou que visão ressurge aos olhos teus?

Vem das trevas do mal ou cai das mãos de Deus?

É saudade ou remorso? é desejo ou martírio?

Quando em obscuro templo a fraca luz de um círio

Apenas alumia a nave e o grande altar

E deixa todo o resto em treva, — e o nosso olhar

Cuida ver ressurgindo, ao longe, dentre as portas,

As sombras imortais das criaturas mortas,

Palpita o coração de assombro e de terror;

O medo aumenta o mal. Mas a cruz do Senhor,

Que a luz do círio inunda, os nossos olhos chama;

O ânimo esclarece aquela eterna chama;

Ajoelha-se contrito, e murmura-se então

A palavra de Deus, a divina oração.

Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo;

Volve os olhos à luz, imita aquele exemplo;

Corre sobre o passado impenetrável véu;

Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.

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