Versos de Amôr Eu · Capítulo 53 de 56
Obra Menu

Versos de Amôr

A um poeta eròtico

Pau d’Arco — Agosto — 1907.

Parece muito doce aquella canna.

Descásco-a, provo-a, chupo-a... Illusão trêda!

O amor, poeta, é como a canna azêda,

A toda a bocca que o não prova engana.

Quiz saber que era o amor, por experiencia,

E hoje que, emfim, conheço o seu conteúdo,

Pudéra eu ter, eu que idolátro o estudo,

Todas as sciencias menos esta sciencia!

Certo, este o amor não é que, em ancias, amo

Mas certo, o egoista amor este é que acinte

Amas, opposto a mim. Por conseguinte

Chamas amor aquillo que eu não chamo.

Opposto ideal ao meu ideal conservas.

Diverso é, pois, o ponto outro de vista

Consoante o qual, observo o amor, do egoista

Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,

É espirito, é ether, é substancia fluida,

É assim como o ar que a gente péga e cuida,

Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instinctos rudes,

Imponderabilissima e impalpavel

Que anda acima da carne miseravel

Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento

Daqui por diante, attenta a orelha cauta,

Como Marsyas — o inventor da flauta —

Vou inventar tambem outro instrumento!

Mas de tal arte e especie tal fazêl-o

Ambiciono, que o idioma em que te eu falo

Possam todas as linguas declinal-o

Possam todos os homens comprehendel-o!

Para que, emfim, chegando á ultima calma

Meu pôdre coração rôto não role,

Integralmente desfibrado e molle,

Como um sacco vasio dentro d’alma!

1/1
Menu