O Dilúvio Crisálidas · Capítulo 5 de 32
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O Dilúvio

O Dilúvio 1 (1863)

E caiu a chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites. Genesis: 7, 12

Do sol ao raio esplêndido, Fecundo, abençoado, A terra exausta e úmida Surge, revive já; Que a morte inteira e rápida Dos filhos do pecado Pôs termo à imensa cólera Do imenso Jeová!

Que mar não foi! que túmidas As águas não rolavam! Montanhas e planícies Tudo tornou-se um mar; E nesta cena lúgubre Os gritos que soavam Era um clamor uníssono Que a terra ia acabar.

Em vão, ó pai atônito, Ao seio o filho estreitas; Filhos, esposos, míseros, Em vão tentais fugir! Que as águas do dilúvio Crescidas e refeitas, Vão da planície aos píncaros Subir, subir, subir!

Só, como a idéia única De um mundo que se acaba, Erma, boiava intrépida, A arca de Noé; Pura das velhas nódoas De tudo o que desaba, Leva no seio incólumes A virgindade e a fé.

Lá vai! Que um vento alígero, Entre os contrários ventos, Ao lenho calmo e impávido Abre caminho além... Lá vai! Em torno angústias, Clamores e lamentos; Dentro a esperança, os cânticos, A calma, a paz e o bem.

Cheio de amor, solícito, O olhar da divindade, Vela os escapos náufragos Da imensa aluvião. Assim, por sobre o túmulo Da extinta humanidade Salva-se um berço: o vínculo Da nova criação.

Íris, da paz o núncio, O núncio do concerto, Riso do Eterno em júbilo, Nuvens do céu rasgou; E a pomba, a pomba mística, Voltando ao lenho aberto, Do arbusto da planície Um ramo despencou.

Ao sol e às brisas tépidas Respira a terra um hausto, Viçam de novo as árvores, Brota de novo a flor; E ao som de nossos cânticos, Ao fumo do holocausto Desaparece a cólera Do rosto do Senhor.

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