Memorial de Aires: 1888 - 23 de maio Memorial de Aires · Capítulo 43 de 181
Obra Menu

Memorial de Aires: 1888 - 23 de maio

23 de maio

Les morts vont vite. Tão depressa enterrei o leiloeiro como o esqueci. Assim foi que, escrevendo o dia de ontem, deixei de dizer que no armazém do Fernandes achamos todos os objetos de mana Rita notados e vendidos, e o dinheiro à espera da dona. Pouco é; recebê-lo-á oportunamente. Talvez não houvesse necessidade de escrever isto; fica servindo à reputação do finado.

Outra cousa que me ia esquecendo também, e mais principal, porque o ofício dos leilões pode acabar algum dia, mas o de amar não cansa nem morre. A culpa foi de mana Rita, que, em vez de começar por aí, só me deu a notícia no largo de São Francisco, indo a entrar no bonde. Parece que Fidélia mordeu uma pessoa; foram as próprias palavras dela.

- Mordeu? - perguntei sem entender logo.

- Sim, há alguém que anda mordido por ela.

- Isso há de haver muitos - retorqui.

Não teve tempo de me dizer nada, trepara ao bonde e o bonde ia sair; apertou-me a mão sorrindo, e disse adeus com os dedos.

`n

1/1
Menu