Leia agora
Livro físico Hospedeira do Caos: Espelho D'Água (Brochura) Brochura R$ 75,00 Estoque: 36 exemplares
Livro digital Hospedeira do Caos: Espelho D'Água (Ebook) EPUB R$ 15,00
Capítulo 1 · Hospedeira do Caos: Espelho D'Água

1. A Viagem

1 de 39 ≈ 23 min de leitura Áudio disponível

Ando pelo corredor, ouvindo o tilintar das chaves em minha mão. Após uma viagem de doze horas indo até uma pequena cidade chamada Bonito, abro a porta do meu quarto; só quero me acomodar e deitar na espaçosa e confortável cama do hotel. A suíte, de tamanho padrão, com paredes amareladas e com um intenso cheiro de limpeza se alastrando por todo o ambiente, me parece grandiosa se comparada com a insossa e gordurosa poltrona do ônibus.

Exausta, me pego olhando para a mesinha rústica e redonda localizada no canto mais iluminado do quarto; em cima dela, alguns folhetins de passeios turísticos dispostos de forma organizada me fazem lembrar do motivo que me levou até aquele lugar. Cuidadosamente abro a minha mala e pego o diário velho de couro marrom que meu pai deixou antes de desaparecer. Folhear aquelas páginas encardidas, cheias de anotações e instruções, faz o meu nariz coçar.

Chego na página com o mapa da gruta e, ao analisar os tortuosos caminhos desenhados à mão com tinta nanquim, sinto que, de alguma forma, conseguirei minhas respostas com essa viagem, ou, pelo menos, sofrerei uma grande decepção que me libertará da necessidade de tentar entender o que aconteceu com o homem que eu nem sequer conheci. Leio atentamente cada palavra daquele confuso diário, sei para onde ir, mas não sei o que irei encontrar ou, o mais importante, se irei encontrar algo.

As anotações são mistas, não têm uma cronologia específica, há informações a respeito de vários locais do mundo simplesmente jogadas nas suas páginas amarelas junto a enigmáticos textos em códigos e rabiscos. Minha releitura é interrompida com o toque estridente do celular; olhei curiosamente para a tela e, inconscientemente, dou um sorriso de canto antes de atender a ligação.

— Boooa tarde, amor da minha vida! Já chegou ao seu destino? Comeu alguma coisa? — disse Neusa com a sua voz contagiante antes que eu pudesse responder.

— Boa tarde, maravilhosa! Cheguei há pouco tempo, você não me deu a chance nem de desfazer as malas! — falei com um tom docilmente irônico.

— Eu me preocupo com você, se eu não ligar, você não me liga. Se precisar de alguma coisa, me fala que vou correndo até aí! — respondeu a mulher mais desesperada que eu conheço.

— Vem como, criatura? Vai largar o pobre coitado do Murilo para trás? Quer matar o velho do coração? — falei desafiando. Ouvi uma risadinha sem graça ao fundo do celular e sabia que o meu pai estava ouvindo.

— Eu estou bem! — afirmei tentando passar tranquilidade, mesmo estando ansiosa. — Vou dar uma volta pela cidade e os seus arredores amanhã de manhã, sei que você não está muito feliz com isso, mas agradeço por não tentar me impedir ou colocar a situação como se fosse algo... — disse e dei uma pequena pausa, esperando que talvez ela fosse finalizar a frase, comprovando o quão desnecessário achava aquela viagem, no entanto, ela não finalizou e eu fiquei feliz com isso. — Bobo.

— Eu não gosto dessa ideia, mas se é importante para você, é importante para mim, espero que encontre o que procura. Eu não tentaria te impedir, até porque você é teimosa igual a uma mula, iria me causar um infarto. Prefiro saber o que está fazendo do que proibir e você acabar fazendo do mesmo jeito. Eu te amo, você é minha filha, não de sangue, mas... desde que você entrou na minha vida, pequenininha, chorona e melequenta, só me trouxe felicidade.

— Amo você também, é a maior do mundo! Minha mãe não poderia ter escolhido madrinha melhor. Minha bateria está acabando, vou me instalar aqui, a gente vai conversando. Manda um beijo para o Murilo! — digo e finalizo aquela ligação com um pouco de peso na consciência, não havia deixado explícito que iria explorar a gruta em que meu pai desapareceu, apenas havia dito que iria ao último local em que ele esteve e dei a entender que ficaria na cidade. De certa forma não menti, achei mais seguro não dar muita informação para uma senhora cardíaca de cinquenta e oito anos.

Neusa era a melhor amiga da minha mãe e se propôs a ser minha tutora após seu falecimento, ela não podia ter filhos e cuidou de mim como se fosse sua. Não cheguei a conhecer minha mãe biológica, ela morreu logo após meu nascimento e o único contato que tive, foi com algumas fotos.

Devido ao trabalho de banqueiro do Murilo, seu esposo, mudávamos muito até meus dezoito anos, quando fui para uma república com alguns colegas da faculdade de enfermagem. Hoje, aos vinte e quatro anos, moro com algumas samambaias em um pequeno apartamento próximo do centro, o que permitia um acesso mais rápido ao meu emprego no hospital.

Após um revigorante banho quente e um delicioso almoço em uma churrascaria próxima ao hotel, dou uma volta pela cidade buscando alguma agência de turismo que poderia me levar ao meu destino. Era uma cidade pequena, porém, circundada por rios de águas translúcidas e enormes cavernas que se localizavam a vários quilômetros do centro, atraindo muitos exploradores o ano inteiro.

Encontrei um motorista de aplicativo que me deixaria na entrada da Trilha da Costela, uma estrada de chão afastada da cidade que, seguindo por alguns quilômetros, chega a uma multifurcação. Seus caminhos levam para as mais diversas montanhas, grutas e lagos submersos espalhados pelo terreno.

Seu nome era Jairo, um senhor de aproximadamente sessenta anos, cabelos grisalhos e baixa estatura. Fiquei um pouco apreensiva quando ele afirmou que eu não conseguiria guias para me levar até meu destino, o que, mais tarde, se provou verdade, uma vez que não encontrei nenhum profissional que aceitasse fazer a minha rota.

A tarde passou rapidamente e voltei para o hotel tentando não pensar muito no fato de que estaria sozinha no dia seguinte, me deito e tiro um longo e profundo descanso. Minha ansiedade não sobressaiu ao cansaço da viagem, assim que me deitei tudo ficou escuro e quando acordei o céu ainda estava negro. Por volta das cinco horas da manhã tomei outro banho quente tentando aliviar a tensão, coloquei roupas confortáveis e esperei no refeitório do hotel. Não consegui me alimentar muito bem, estava muito ansiosa e havia combinado com Jairo de me buscar às sete e meia, foram às duas horas mais longas da minha vida.

Com um atraso de dez minutos, o motorista chegou ao hotel para me buscar, geralmente eu não me importaria, não posso me considerar a pessoa mais pontual do mundo, mas... aqueles dez minutos estavam me matando. Sentia borboletas enfurecidas batendo asas no meu estômago até ver apontando o Chevrolet prata com a placa KPT 0207, o que foi irônico, pois, além do “capeta” (KPT) escrito na placa, 02/07 era exatamente a data que meu pai desapareceu.

Esse pensamento foi interrompido quando o carro parou na minha frente e o simpático senhor me pediu para embarcar em seu “poderoso possante”. Eu me sento no banco traseiro e lembro dos antigos conselhos da Neusa, de sempre me acomodar atrás do motorista, caso seja um tarado, consigo sufocá-lo com o cinto ou esfaqueá-lo com um canivete que carrego na minha bolsa para fugir de uma situação indesejada. Me peguei rindo sozinha, pensando se esfaquear uma pessoa já não seria situação indesejada o suficiente e, olhando para o senhor simpático de, no máximo um e sessenta e cinco de altura, com os braços mais finos que os meus, aquela situação se tornava ainda mais cômica.

Eu queria muito ser uma pessoa séria, que entra nos carros de carona, se apresenta com um educado bom-dia e segue seu caminho plena com fones de ouvido até o fim do trajeto, mas essa definitivamente não sou eu. A viagem tinha duração de uma hora de carro e, quando percebi, já sabia todo o histórico de Jairo, que também não era a pessoa mais reservada do mundo.

Ele me contou sobre sua esposa, que eram casados há longos quarenta e cinco anos, cinco filhos e dez netos, que tinha conservados sessenta e oito anos e era aposentado, trabalhava por não querer ficar à toa em casa e tinha um gato caolho chamado Abóbora, que era “muito safado e pegava todas as gatas do bairro”. Eu amava gatos e tentei persuadi-lo a castrar o animal, informando sobre as vantagens do procedimento, mas ele ligeiramente me informou ter “amor às bolinhas” do bichano; depois daquela informação eu não encontrei uma forma de continuar com o assunto.

Aproveito o minuto de silêncio para conversar sobre a gruta, ele morava na cidade há muitos anos, deveria ter conhecimento sobre a história do local.

— Não vou dizer que não me surpreendi quando você me procurou e pediu recomendações de guias para te levar na Gruta do Demônio, ainda mais quando eu avisei que você não ia conseguir ninguém e mesmo assim, quis ir. É um lugar perigoso, as pessoas não vão lá nem acompanhadas, imagine sozinhas.

— Sabe me dizer por que exatamente eles interditaram a gruta? Aconteceu algum evento em... específico? — questionei sabendo a resposta, talvez recebesse alguma informação extra sobre o ocorrido.

— Bom, já sumiu gente naquela gruta, um homem desapareceu há muitos anos, não encontraram nem os ossos. — meu coração aperta e respiro fundo, eu sabia de quem se tratava. Na época o desaparecimento não passou despercebido pela imprensa e as teorias de conspiração que pairaram sobre o caso fizeram o assunto render por um bom tempo. — Não sei das suas crenças, menina, mas... os antigos sempre alertaram sobre o lugar, muita gente já ouviu barulhos estranhos na montanha, dizem ser amaldiçoada. E depois que o homem sumiu sem deixar nenhum vestígio, aumentaram os rumores de ser realmente a toca de um demônio. — sinto o aperto novamente, não pelo “demônio” que morava lá dentro, o que, para mim, era bobagem, mas cada vez que falava do homem que sumiu, eu sentia um nó no meu estômago.

O motorista me deixou bem em frente à entrada da famosa Trilha da Costela, a larga estrada de terra adentrava a floresta densa de galhos retorcidos, caminhando por ali, seria uns bons quilômetros até chegar na gruta. Olho para a rodovia e não muito longe dali conseguia avistar pequenos telhados de algumas casas, seguindo por ali poderia facilmente alcançar a pequena vila caso precisasse.

— Muito obrigada, Jairo! Nos vemos na cidade antes que eu volte para casa — agradeço a carona e o senhor sorri me entregando um cartão simples com seu telefone.

— Quando precisar que te busque, me ligue! Vou falar de você para minha esposa, ela cozinha muito bem e vai amar ter você com a gente. — ele se orgulhava da mulher e, visivelmente, gostava de companhia, olhei sorrindo para ele, que continuava com o rosto simpático.

— Será um prazer! — falo me despedindo.

Entro na limpa e espaçosa trilha, seguindo um mapa da estrada, não sei exatamente quantos quilômetros andei, mas após os primeiros trinta minutos de caminhada, cheguei a um ponto onde ela se divide em doze caminhos menores. Desejei ter tomado um café da manhã mais reforçado, as frutas que eu levava na mochila estavam me servindo bem, mas ainda sentia fome, não queria ter que desarrumar minha bolsa no meio do caminho para tirar os sanduíches que estavam embalados. Achei melhor esperar chegar ao local para poder me alimentar com mais tranquilidade.

Me deparo com uma charmosa placa de madeira escrita à mão apontando para a direção de diversas grutas nas redondezas. Mas, não, a placa não apontava para a Gruta do Demônio e aquilo fez meu coração disparar, era o caminho certo, eu não poderia ter me enganado.

Avalio melhor a estrutura e consigo ver o local onde a madeira com a provável indicação do caminho fora apagada, realmente não queriam pessoas perambulando por lá e a certeza começa a me deixar nauseada.

Respiro fundo me recompondo e sigo pelo caminho indicado pela placa apagada, a estrada que antes era larga, se tornou curta e quase que totalmente oculta pela vegetação. Definitivamente não passavam muitas pessoas por lá e, após entrar em uma pequena abertura que falsamente parecia a continuação da trilha, fico perambulando sem rumo por algumas horas, totalmente desesperada. Cansada, assustada e anestesiada de fome, me sento em uma grande pedra marrom e começo a desembalar os sanduíches. Recupero minhas forças e as uso intensamente para chorar, as lágrimas corriam pelo meu rosto e começo a soluçar descontroladamente, não conseguia conter os pensamentos de que ninguém iria me encontrar e que eu iria morrer na floresta.

— Ótimo, te dou parabéns! Gênia! Afinal, ir atrás do lugar onde seu pai desapareceu? — bati três palmas com ironia. — Que ideia mais idiota, ia chegar lá na gruta e fazer o quê? Achar seu pai que está desaparecido há vinte e quatro anos e ser feliz? Ver o lugar em que provavelmente ele morreu soterrado ou preso em algum buraco claustrofóbico? Depois de ter sido criada por um casal que te tratou igual uma filha, você vai e agradece a eles morrendo no meio da floresta, servindo de comida de onça? — gelei com aquele pensamento, ali realmente era um local ideal para onças e precisava encontrar a trilha novamente o mais rápido possível.

Aperto meu colar com força tentando me acalmar, ele era simples, com uma gargantilha fina de ouro, com o pingente de uma pedra verde azulada e lisa que, dependendo da forma que eu a movimentava, emitia uma luz no mesmo tom. Era da minha mãe e após sua morte, o colar havia sido passado para mim.

Não tive o prazer de conhecer minha mãe. Ela morreu logo após meu nascimento, mas sempre que algo me afligia, eu segurava o amuleto e sentia uma energia fluir pelo meu corpo, como se estivesse protegida, e só conseguia pensar que talvez minha mãe estivesse ali comigo. Retomo meu caminho e não longe dali encontro a trilha novamente, não demorou meia hora até chegar a tão famosa Gruta do Demônio. Nessa altura do campeonato escutar minha consciência e dar meia-volta não fazia mais sentido; estava, na minha frente, uma montanha com pedras escuras e uma entrada aterrorizante, o nome não foi dado de forma aleatória.

A fila de estalactites em volta de toda a borda da abertura, junto a processos rochosos que lembravam muito a face de um demônio, sugeriam bem o nome do local e era de se esperar que as pessoas criassem teorias sobre o lugar. A umidade da caverna dava a ligeira impressão de que lágrimas corriam pelo que seriam os olhos e sinto meu corpo se arrepiar.

Fiquei parada por um tempo contemplando a estrutura geológica e me perguntando se os alienígenas não esculpiram aquilo, afinal, é seguro dizer que tudo que o ser humano não sabe explicar é crédito dos aliens, deuses ou... demônios. Estremeço com esse pensamento, um frio na espinha me fez arrepiar até os pelos da nuca. Queria ter oferecido um pouco mais de dinheiro para algum guia, talvez aceitassem o suborno e eu não estaria parada na entrada de uma caverna, às duas horas da tarde, pensando se deveria entrar e até onde deveria ir.

Não era minha primeira caverna, eu já havia explorado várias outras grutas e até lagos submersos, definitivamente aquele era o tipo de programa que me interessava, mas o significado daquele lugar e o fato de estar sozinha me davam um pouco de medo, afinal, ali foi onde o destino me impediu de conhecer meu pai, o homem do qual dizem que herdei os grandes olhos castanho-avermelhados. Novamente pego no meu pingente e sinto confiança para entrar, eu tinha uma sensação, algo me atraía, como se eu realmente deveria estar ali, mesmo sentindo como se meus pulmões não funcionassem.

O ar parecia se expandir no meu nariz e descia pela minha garganta de um jeito que começou a doer, meu estômago queria sair do meu corpo e quando percebi, meu maxilar latejava pela forma que eu apertava os meus dentes.

Finalmente ultrapasso as grandes presas de pedra e adentro a cavidade, absolutamente nada aconteceu, toda aquela tensão e ansiedade se dissiparam e eu estava em uma “gruta qualquer”. Um amplo salão com belíssimas galerias de paredes calcárias com formações irregulares, a pouca influência de luz solar, mas com aberturas causadas por desmoronamentos ou pela ação da água, funcionavam como uma iluminação natural do ambiente, o jogo de sombras deixava a câmara elegante, porém, o clima da caverna era tenso e sufocante.

Abro o mapa que havia retirado do diário do meu pai em uma mesa natural no centro do recinto e começo a avaliar as instruções. Havia tantos detalhes da gruta que me questionava; “Fazer um mapeamento tão bom, quantas vezes tal homem foi até lá antes de desaparecer?”

Me visto com os EPIs e começo a seguir o mapa. Conforme me aprofundava na caverna, a luz natural ia sendo substituída pela luz da lanterna e o sentimento de claustrofobia ficava cada vez mais intenso. Com cuidado observo discretos desenhos nas paredes, mas não sei o significado, tinha algo sobre esses símbolos no diário, mas não me lembraria de cor, e agora era tarde para me arrepender de ter deixado no hotel.

Seguindo o caminho indicado, fui perdendo a noção do tempo, a luz artificial me atrapalhava e por algum motivo meu relógio não funcionava, à medida que as lanternas refletiam as paredes, desenhos mais elaborados se revelavam, a umidade os deixou apagados e com poucos detalhes. Parecia ter uma camada grossa de sal por cima funcionando como um verniz, tentei tirar um pouco do excesso com as luvas, mas sem muito êxito.

Me afastando um pouco da parede, as figuras humanoides do desenho se apresentavam em volta de um bonito lago azul e no centro de suas bordas havia uma grande pedra brilhante. Tento me afastar um pouco mais para ver se conseguia entender toda a história expressa na longa parede calcária, quando sinto que piso em falso e o chão cede embaixo de mim.

Fico desacordada por algum tempo e, quando finalmente recobro minha consciência, estava um pouco desorientada; logo começo a me questionar como pude não cuidar de onde pisava. Levanto com dificuldade e cambaleio até uma pedra para retirar o meu tênis, meu tornozelo doía e eu precisava avaliar se tinha alguma fratura.

Aparentemente não parecia estar quebrado, apenas bem dolorido e um pouco inchado, meu primeiro pensamento, inocentemente, foi sobre como eu iria voltar para a estrada com o pé desse jeito. Mas foi breve, pois olho ao redor do imenso salão azul e, antes que pudesse contemplar sua beleza, o desespero me consome e a pergunta que ressoava na minha mente era: COMO QUE VOCÊ VAI SAIR DESSE BURACO PRIMEIRO? O chão cedeu comigo, estou um salão abaixo dos desenhos, sabe-se lá a quantos metros da superfície, não tem como eu simplesmente escalar as paredes com o pé machucado e sair pelo teto.

Olho novamente ao redor e não vejo nenhuma passagem alternativa para sair do local, só um imenso salão azul, escuro a ponto de parecer uma noite iluminada e claro o suficiente para não precisar usar as lanternas para conseguir enxergar. Desejei fortemente que o senhor Jairo sentisse minha falta e mandasse alguém para me buscar, mas minhas esperanças definhavam quando lembrava que poderia gritar o quanto quisesse que provavelmente as paredes porosas iriam abafar qualquer som e que, para piorar minha situação, eu havia seguido um mapa que me fez entrar em buracos que provavelmente ninguém ousaria passar sem um conhecimento prévio da estrutura.

Dou alguns passos até uma rampa, não consigo identificar se é artificial ou não, mas a passagem é fácil e, em um nível abaixo de onde eu me encontrava, havia uma enorme piscina. A luz azulada espelhava de dentro dela, tão linda, uma imagem maravilhosa, o teto parecia ladrilhado, estruturas semelhantes a espelhos ecoavam o reflexo da água.

Automaticamente peguei o celular e cogito tirar uma foto, mas ele havia se espatifado na queda. Então paro para pensar em como foi ridículo me preocupar em tirar uma foto, sendo que eu provavelmente iria morrer naquele lugar. Começo a rir de nervoso e a depressão passa a me consumir, não conseguia chorar, estava muito impressionada para tal e falhava miseravelmente em me consolar dizendo em voz alta que “pelo menos eu ia morrer em um lugar bonito”.

Começo a ouvir sons estranhos, não sabia explicar o que eram exatamente, mas se assemelhavam a sussurros, vários sussurros sendo cantados ao mesmo tempo. O som não parecia ser hostil, mas me causava um sentimento de aflição, me aproximo da piscina e consigo identificar a grande pedra centralizada em uma área mais alta.

Não era brilhante como nos desenhos da parede, mas a cor cinza da estrutura era totalmente incompatível com o material do resto da caverna, qualquer leigo veria que aquilo não era natural, fora construído ali. Uma clara luz azulada brilhante começa a emitir do meu pingente e eu o seguro, interessada, já havia observado a tonalidade azul esverdeada em outras ocasiões, mas nunca em um ambiente escuro.

Continuo minha caminhada até a grande pedra cinza no topo da piscina, andar com o pé lesionado fazia a distância parecer maior e os sons pareciam diminuir à medida que me aproximo do local. Finalmente eu estava de frente para a estrutura e tive a verdadeira noção de seu tamanho, era um enorme pedaço bruto de um tipo de rocha sólida e acinzentada, devia ter em torno de uns cinco metros de altura e exalava um estranho calor, uma vez que o resto do salão estava com a temperatura baixa.

Me aproximo calmamente da pedra e me questiono como alguém a teria levado para ali, não tinha entradas para o salão, precisaria de um maquinário muito forte para carregar um pedaço daquele tamanho. Além disso, não fazia sentido nenhum a montanha ter se desenvolvido depois da construção daquela espécie de templo.

Aliens, pensei novamente, mas lembrei das outras possibilidades: deuses e demônios, então preferi não pensar muito em como aquela estrutura foi parar ali. Volto a ouvir sons, que agora estão vindo diretamente da rocha, são sons mais baixos, parecem algum tipo de sussurro, como se várias pessoas falassem ao mesmo tempo.

Inclino meu tronco para tentar ouvir melhor; toquei a pedra com a frente do meu corpo e a lateral da minha face, o som cessa no mesmo instante e um silêncio mortal preencheu todo o lugar enquanto a coloração azulada imediatamente se tornou dourada, como se o salão fosse aberto e o reflexo de um crepúsculo preenchesse seu interior. O lugar continuava sendo o mesmo, mas a energia mudou; olhando ao redor me deparo com uma escada que podia jurar que não existia ali, mas talvez, pela pouca iluminação e pelo desespero, eu não tivesse prestado tanta atenção na alta escadaria de pedras que estava a poucos metros de mim. Subo dolorosamente os incontáveis degraus e, chegando ao topo, consigo sentir o vento no meu rosto, não acreditei quando vi que ela se destinava diretamente para fora da montanha, a floresta estava bem cheia e fresca, o cheiro de verde nunca foi tão bem recebido pelo meu nariz; a vegetação estava alta e selvagem.

Olhando para o céu, vi que já estava no final da tarde e decidi contornar a montanha em direção à entrada da gruta, voltando para o lugar em que entrei, seria mais fácil identificar a trilha e mais seguro voltar para a estrada de terra. Eu tinha alguns cobertores na mochila e material para fazer uma fogueira, o que me possibilitaria ficar por lá até de manhã.

Andei me escorando nas árvores por alguns minutos, quando ouço vozes e uma movimentação próxima de mim, talvez um grupo de trekking estivesse passando por lá. Me senti aliviada, precisava de ajuda e não teria outra oportunidade como aquela.

— OLÁAA, ALGUÉM AÍ? POR FAVOR, ME AJUDEM! — gritei pela floresta. As vozes se calaram, mas a movimentação continuou, agora, vindo na minha direção, fico aliviada em ter sido encontrada. — Olá?

As vozes continuaram em silêncio, as passadas se tornaram curtas e rápidas, me causando certa tensão. Fico imóvel e com dúvidas se esperar pelo grupo era realmente uma boa ideia; meu coração saltava conforme os passos se aproximavam da minha localização. Penso em me esconder, mas sou violentamente atingida no rosto, caindo zonza no chão. O gosto de sangue se espalhava pela minha boca e, antes que eu conseguisse me levantar, recebi outro golpe na face.

Fui golpeada inúmeras vezes pelo que pareciam ser criaturas baixas e verdes; eu não conseguia identificar exatamente o que eram, estava tentando proteger meu rosto enquanto um grupo deles me atacava incansavelmente com tacapes de madeira. Senti que estava perdendo a consciência e tudo começou a ficar escuro antes que pudesse entender o que estava acontecendo.

Hospedeira do Caos: Espelho D'Água

Sinopse

Quando o vazio consome a alma do ser humano, a necessidade de respostas fala mais alto e nos obriga a tomar decisões impensadas. Laura, uma aventureira, decide explorar a gruta onde o seu pai desapareceu e acidentalmente entra em outro mundo.

Perdida em uma floresta desconhecida, ela é atacada por criaturas estranhas e, ao recobrar a consciência, descobre ter sido resgatada por Cassio e Rob, irmãos que a levam aos cuidados da Maga Lillian.

Laura logo descobre que é procurada pelo tirano rei de Andenia, um usurpador que trouxe Caos e monstros ao reino. A perseguição do rei gera atritos no grupo, especialmente entre Laura e Cassio, cuja desconfiança torna a relação entre eles cada vez mais conflitante.

Novos aliados se unem ao grupo, mas quanto mais tempo Laura passa naquela realidade, mais difícil parece seu retorno.

Ver ficha da edição física
ISBN
978-65-01-08515-9
LITEBN
LITEBN-9786501085159
Páginas
518 páginas estimadas
Formato
16 × 23 cm
Hospedeira do Caos: Espelho D'Água

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Hospedeira do Caos: Espelho D'Água

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Hospedeira do Caos: Espelho D'Água Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Ofertas disponíveis · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Hospedeira do Caos: Espelho D'Água

Cada capítulo avulso custa R$ 0,42. Ao completar R$ 15,00 em capítulos, você ganha automaticamente o e-book e o acesso à obra completa.

Capa de Hospedeira do Caos: Espelho D'Água
Comece a leitura 1. A Viagem Capítulo 1 · 1 de 39 · ≈ 23 min
Todos os capítulos 39 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

1 Leitores com posse
1 Unidades registradas
BR

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir