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Deusa da Discórdia

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Capítulo 1 · Deusa da Discórdia

1.1 SAN-LEHAN — ESTAÇÃO ORBITAL ÉRIS

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SEIS DE JANEIRO DE 2125 — 00:00

Estalos metálicos, ventoinhas agressivas e o próprio ranger de uma estrutura que se queixa da força exercida sobre si mesma permeiam o ambiente.

San-Lehan tentava apreciar o prazer de flutuar no vácuo, em meio aos protestos de uma petulante estação que implora o próprio abandono.

Se pudesse filtrar a mal-humorada estrutura cinzenta ao seu redor, bastaria levantar os pés do chão e perder o senso de direção — deitado ou em pé, não faria diferença. Qualquer lugar poderia ser uma cama... Ou um útero materno.

Clamava para que estações espaciais fossem equivalentes ao que era mostrado em filmes: absoluto... silêncio.

Prestes a adentrar o estado meditativo, um novo sistema foi acionado — um pulsar líquido através das tubulações iniciou o ciclo de reciclagem de água. Do outro lado, o bater da lataria solta dos sistemas de HVAC e compressores velhos ecoava ao longo de toda a estrutura da querida Estação Éris.

Consigo abstrair você, Éris. Isole os sons. Flutue no centro do quarto. Largue todas as âncoras e aproveite o vazio. Basta concentração absoluta — pensava San-Lehan.

Para um novato em gravidade zero, o que San fazia seria desesperador. Perder-se-ia em pânico, em sensações claustrofóbicas, por mais contraditório que parecesse. Talvez o gatilho fosse a incapacidade de se ancorar, fazendo com que o hipotálamo registrasse estar preso em algum lugar apertado, mesmo que o ambiente fosse amplo. As reações sempre eram hilárias.

Hoje não havia nenhum novato para entreter os espectadores. Apenas San-Lehan, flutuando nu no centro do quarto. Com as pálpebras fechadas, cabelo flutuante, o corpo esguio arqueava a coluna parcialmente para trás, como se se debruçasse de costas na beirada de um colchão. Era uma visão quase renascentista.

Parecia ter nascido para a gravidade zero desde o primeiro momento em que experimentara a sensação.

San suprimiu um sorriso de canto de boca e continuou sua meditação flutuante, como se estivesse dormindo.

Um observador externo, parado na porta, apreciava a cena — apenas assistia ao enigmático homem flutuando, com certo receio de chamar sua atenção e perturbar o processo. Quando achasse conveniente, San abriria os olhos... Eventualmente.

Analisou as deformidades espalhadas pelo corpo de San. Nunca entendeu ou pediu explicações sobre o que eram.

O corpo exibia uma sequência de orifícios oclusos, perfeitamente circulares, cravejados como anomalias de nascença — cada um deles com bordas ligeiramente rugosas, em tom pálido-amarelado, lembrando tecido queimado ou a crosta de uma ferida antiga. Não eram meros furos: atravessavam a carne de lado a lado, revelando túneis escuros e assombrosos, fundos o bastante para engolir a luz. A pele ao redor parecia sempre tensionada, como se lutasse para se fechar, mas tivesse falhado, formando pequenas crateras orgânicas — aberturas vazias que expunham camadas internas e um vazio impossível de ignorar.

Dispostos simetricamente — um em cada braço e antebraço, coxa e sobrecoxa, e outro central, logo acima do umbigo —, lembravam um padrão ritualístico. A visão de todos alinhados, atravessando o corpo como uma série de bocas famintas, provocava náusea involuntária: não era apenas a ausência de carne, mas a impressão de que algo faltava no próprio mundo, uma falha de continuidade, um erro de fábrica na anatomia.

O quarto assobiava em frequências disformes conforme a circulação do ar ambiente transitava através dos orifícios. Uma flauta humana que emitia sons desconcertantes quando exposta. Perturbador para outros, mas ruído meditativo para San.

O observador sabia que San já notara sua presença, mas permaneceu em silêncio. Era a cena de um teatro em que o amigo fingia estar alheio, para passar a impressão de que pensava que o colega ainda estava dormindo.

Essa era uma dinâmica recorrente e constante entre os dois. Teoria dos Jogos aplicada. Uma maneira de passar o tempo, quem sabe...

Qualquer um não-disruptivo certamente não veria sentido nesse tipo de interação.

Nem mesmo a presença de outros poderia suavizar a verdade — isolados numa estação esquecida, no extremo do sistema solar, eram apenas ecos perdidos no silêncio cósmico.

Deusa da Discórdia

Sinopse

'Deusa da Discórdia' é uma ópera tech-noir ambientada em 2125, um futuro de avanços quânticos e decadência social. A narrativa tece sua complexidade através da alternância constante entre múltiplos pontos de vista, seguindo personagens como San-Lehan, Orwell, Mira e Pol. Inicialmente, suas histórias parecem mundos à parte: San está isolado nos confins do sistema solar, Orwell sobrevive em um subúrbio decadente, e Mira enfrenta um processo seletivo brutal. Contudo, a estrutura revela gradualmente que essas trajetórias não são paralelas, mas sim convergentes, interligadas por forças invisíveis e conspirações que operam em escala sistêmica. As suas vidas colidem quando um evento de "quebra de localidade quântica" os interliga através do "Palácio"; a manifestação física e quadridimensional do Inconsciente Coletivo. Perseguidos por fações rivais numa guerra fria empresarial que sequer podem compreender, buscam apenas sobreviver dentro de um universo sádico e sardônico. O livro é uma exploração desafiadora sobre livre-arbítrio, consciência e a beleza oculta na desordem.

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