Universo da obra
Universo da obra
Foi a vontade de passar alguns dias no campo na companhia de Boris, um goldendoodle amistoso e cavalheiro que me fez aceitar o convite da Senhora Velha.
Eu topei na hora, ainda mais agora que não tenho mais os meus gatos para cuidar, o último deles, Tintin, um bombaim adorável mas abusivo faleceu há dois anos e desde então eu não tenho animais de estimação.
Eu preciso escrever 10 mil palavras para uma revista literária, o escritor Stephen King faz isso em um dia, mas eu em 10. Mil palavras por dia, escritas de manhã onde a minha disposição e destreza de pensamento está mais aguçada.
O que eu não posso fazer é, antes de acessar o meu drive, entrar em lugares que me desvirtuem, como veículos midiáticos ou coisas do tipo... Outro risco que corro são com as notícias, que em 80% dos casos me indignam, levando-me muitas vezes, a buscar satisfações com os envolvidos.
Dos 7 pecados capitais a ira é a que mais me acomete e por isso eu desdenhava dela até que uma de minhas escritoras favoritas, a polonesa Olga Tokarczuk, fez uma ode em sua homenagem no livro Sobre Os Osso dos Mortos.
Há alguns anos me aposentei como professora da universidade F e por não ter filhos eu posso, quando morrer, deixar o que tive em vida para alguma instituição que atende meninas em situação de vulnerabilidade.
Na vida, fiz escolhas que parecem mais adequadas para quem não tem com quem compartilhá-las.
Em termos de posses a minha vida é simples: eu tenho um apartamento de dois quartos na capital onde moro e outro no mesmo prédio que eu alugo. Recebo aposentadoria da universidade onde dei aula, tenho alguns objetos de arte de valor considerável, uma pequena herança deixada por familiares que está no banco e vez ou outra ainda recebo um troco por alguma publicação de minha autoria.
Tirando um problema na voz que faz com que as vezes ela desapareça completamente, a minha saúde é boa. Eu sou mais nova que a Senhora Velha, então eu diria que sou uma Senhora Senhora com disposição para cuidar e passear com o Boris, que mesmo antes de se tornar um cachorro já era um de meus melhores amigos.
Sonata das Primeiras é um romance lírico que acompanha uma mulher madura em retiro numa casa de campo, tentando escrever enquanto o mundo ao redor parece lentamente desintegrar. Acompanhada por um grupo de personagens excêntricos — uma coreógrafa que talvez seja Nannerl Mozart, um investidor turco melancólico, um cachorro que já foi humano —, a narradora constrói um diário fabulado sobre amizade, memória e fim do mundo. Combinando introspecção e fantasia, realidade e delírio, o romance mistura elementos de Leonora Carrington, Virginia Woolf e o humor agridoce das cartas não enviadas. A linguagem é sensorial, por vezes onírica, e o tempo parece oscilar entre o passado e um presente colapsado. O resultado é uma narrativa sobre resistir com arte, rir diante do abismo e inventar beleza onde o cotidiano falhou.
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